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Muita gente quer ser mais sustentável. Eu sei disso porque eu tô aqui faz alguns anos já e recebo muitas mensagens sobre como é difícil encontrar esse conteúdo se você não sabe como pesquisar (e como tem gente que fica feliz. Eu sei disso também porque eu já estive nesse lugar: queria reduzir meu lixo, queria fazer coisas mais legais pro meio ambiente mas não fazia ideia de como.

Faz algumas semanas que, toda sexta-feira eu mando um email com uma dica e uma tarefa pra quem quer aprender a reduzir sua produção de lixo e ser mais sustentável. Minha ideia era ir mostrando, semana a semana como pequenas ações fáceis de fazer vão fazendo a diferença aos poucos e quando você vê: cataploft, você reduziu muito seu lixo.

Além disso, tem sido um canal pra gente conversar um pouco mais, porque a cada dica surgem algumas dúvidas, alguns problemas individuais. Tem sido muito legal tudo isso! As news que já rolaram são essas:


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Semana passada eu vim aqui fazer uma crítica ao documentário Minimalism, que conta a história dos The Minimalists. Fiquei bastante impressionada com a quantidade de pessoas que concordou que o documentário é muito superficial e poderia ser muito melhor. Algumas pessoas também argumentaram que era óbvio que ia ser superficial porque era um filme de só 2h. Bom, daí a gente chega onde quero chegar: não precisava ser superficial com esse tempo não.

Hoje a gente vai falar de um documentário que vi na sequência do Minimalism, o Demain. Foi indicação da Fê Canna lá no grupo do UASL no Facebook e fiquei tão decepcionada com o Minimalism que resolvi ver esse em seguida pra ver se melhorava o humor. E gente, que filme bom!

Ele parte da seguinte premissa: um casal vê notícias sobre como o futuro do mundo é assustador e Cyril Dion e Mélanie Laurent que estão esperando um filho decidem descobrir soluções criativas pro mundo que o filho deles vai viver não acabar como as notícias prevêem. E aí eles vão atrás de homens e mulheres que fizeram coisas e descobriram soluções pra vários dos problemas modernos.

Se você se incomoda em saber mais detalhes do filme, talvez daqui pra frente tenham spoilers.




A postura é muito diferente nesse filme, eles vão atrás das soluções para um mundo melhor. E, mais que isso também, eles vão atrás de pessoas que já fazem e mostram o que, como, o porquê, quem, quando. Cada pessoa que fala nesse documentário fala como realmente começar a mudar o mundo amanhã. São exemplos de pessoas que fazem hortas no meio urbano, escolas com sistemas diferentes de ensinar, cidades que buscam um sistema econômico complementar ao que já existe. Todos os exemplos são possíveis de a gente sair fazendo assim que o filme acabar.

Isso é incrível. Tem muita profundidade nesse documentário. Não só porque os exemplos são realmente bem descritos, tem números, tem informações, tem o jeito que eles fazem tudo mas também as discussões sobre como o outro modelo – o que a gente vive e considera normal – tem falhas, mentiras, erros grotescos.



O documentário é costurado começando a achar uma solução para o problema da fome, então ele fala no primeiro capítulo da agricultura e mostra soluções incríveis como as hortas urbanas na cidade de Detroit ou sítios pequenos mas com uma eficiência maior (aqui) que monoculturas porque usam a permacultura produzindo comida orgânica, sem agrotóxicos porque as plantas ao seu redor se protegem.

No segundo capítulo, eles mostram alternativas à geração de energia feita com combustíveis fósseis como petróleo e carvão. Esse modelo que vivemos hoje não só é finito porque as reservas naturais um dia vão acabar como é extremamente poluente. A extração do petróleo, do carvão, de minérios (só lembrar da barragem de Mariana). Eles mostram alternativas muito legais, como a Islândia que é totalmente livre do petróleo pra geração de energia, uma ilha na França que instalou painéis solares, vários exemplos inteligentes.

O próximo capítulo fala de economia. O primeiro exemplo é muito, muito legal. É uma fábrica de envelopes e você pensa "nossa, mas o que tem de sustentável em uma fábrica de enevelopes?" e aí o filme mostra como eles passaram a investir muito do dinheiro que a empresa ganhava nela mesma. Assim eles gastam menos eletricidade, matéria-prima, água e ganha mais produtividade, segurança, modernidade. O outro exemplo me deu um nó na cabeça: são cidades que criaram moedas da própria cidade pra fortalecer a economia local. Eu acho que preciso ver de novo o documentário pra entender direito, porque a gente tá TÃO mas tão acostumado ao sistema de reais, dólares, etc que realmente dá um nó na cabeça.



O quarto capítulo é sobre democracia. Aqui, um dos exemplos é a Islândia que após um escândalo de corrupção faz protestos e o povo se reúne não pra proteger os bancos que tinha feito todo mundo perder dinheiro, mas impedir que o governo e os bancos tivessem de novo esse poder. São milhares de pessoas que se reúnem pra discutir e escrever uma nova Constituição. O outro exemplo é em um vilarejo da Índia, onde o Elango fez uma espécia de conselho municipal para discutir com as pessoas as coisas que eles queriam mudar e fazer ali, localmente.

O último capítulo é sobre educação e mostra principalmente como as escolas na Finlândia funcionam. Pra quem herdou uma mistura de sistema americano, é bastante incrível imaginar uma escola como a deles: menos horas por semana em sala, dois professores por turma, vários métodos pra ensinar e não só um, os alunos aprendem a cozinhar, costurar, música, marcenaria, etc.

O gancho entre todos os capítulos é que eles são interligados. A democracia é mais forte se a educação é melhor. Se a democracia é forte, a economia de sempre pode ser questionada e assim podemos pensar em novos modelos energéticos e de agricultura. Esse ponto é super importante, porque toda vez que alguém quer levantar uma solução pra um problema, precisa lembrar que o caminho é gigantesco.



E esse caminho não é pra ser trilhado sozinho. Todas as iniciativas, todos os exemplos que o filme mostra só funcionaram/funcionam porque são muitas pessoas trabalhando pra aquilo. São vizinhos que quiseram plantar hortas na cidade toda, são pessoas de uma empresa que trabalham todos por melhorias que todos sentem, são pessoas que não permitem que o governo mude o plano de educação do país antes do tempo planejado. São pessoas, igual eu e você mas que se uniram com as pessoas próximas porque todo mundo entendeu que as coisas eram legais e boas pra todos.

Porque, vamos lembrar que moram em sociedade, em cidades, em condomínios, não moramos sozinhos. Se queremos mudanças no mundo, precisamos sentar juntos, lado a lado pra conversar e agir. Atualmente, nem conversar a gente tem conseguido, que dirá sentar e agir, concordar em uma ação. Por isso tudo aquilo ali em cima é importante, percebe? Como vamos discutir energia renovável se ainda tem gente que acha que isso "não vale a pena" ou "não precisa"? São muitas perguntas, mas o filme traz infinitas respostas. Por isso: assistam e façam pelo menos dois amigos assistirem também. Vamos espalhar essas ideias e começar a tirar elas do papel!

Demain tá disponível no Netflix, em alguns cinemas e no YouTube nesse link.

+ A cada 15 dias eu vou aparecer aqui pra falar de algum filme ou livro que fale sobre sustentabilidade, pra irmos mais a fundo nas nossas discussões, pra aprendermos cada vez mais. O próximo filme é Cowspiracy, disponível no Netflix e vamos falar sobre ele dia 21/06.
Assisti o documentário Minimalismo: Um documentário Sobre As Coisas Importantes (tradução livre do título) e não gostei. Eu já conhecia o movimento The Minimalists do Joshua e do Ryan porque seguia eles no twitter, tentei ouvir um que outro podcast e achei que seria legal ver o documentário – até porque a gente falou sobre isso lá no grupo do UASL no Facebook semana passada. Acho que tem algumas ideias legais ali, mas acho que no geral tem muitos problemas e uma visão muito rasa que não resolve nada.

O mote principal do documentário é a história do Ryan e do Joshua que, basicamente tinham chegado no topo da carreira ganhando mais de 50 mil dólares por ano, tinham tudo o que sempre quiseram conquistar e de repente perceberam que as coisas que compraram não faziam eles felizes e resolveram se desfazer de quase tudo, inclusive do trabalho. Enquanto eles contam a sua história pessoal e como eles chegaram ali, no lançamento do livro deles em várias cidades (que é o que o documentário conta, na verdade), vamos sendo apresentados a outros personagens que também seguem o movimento minimalista e tem seus próprios projetos pessoais.

Esse texto tem spoilers porque problematizo o documentário, então talvez seja melhor ver o filme antes! ;)


Onde estão as mulheres?


A primeira coisa que me incomodou foi que passaram muitos personagens e quase nenhuma mulher. E não é porque não tem mulher praticando minimalismo ou outros projetos que falem sobre sustentabilidade. Aliás, muitíssimo pelo contrário. A maior parte dos blogs e das pessoas do movimento lixo zero que eu conheço são mulheres! Olha a Lauren Singer. A Bea Johnson. A Anne-Marie do Zero Waste Chef. A Marie Kondo que tem um livro best seller no mundo inteiro, o A Mágica da Arrumação que conversa demais com o que eles falam. Enfim, mulher não falta no mundo, mas faltou na hora de selecionar pro documentário.

As únicas mulheres que aparecem ali pra contar dos seus projetos são a Courtney Carver do Project 333, a Tammy Strobel do A Tiny Tour e a Cristine Koh do Minimalist Parenting. Ainda tem duas mulheres que aparecem, mas com seus maridos – que falam muito mais.

Courtney do Project 333 que originou o conceito de Armário Cápsula

Pra mim, o problema nessa diferença de personagens é que é muito mais fácil pros homens o discurso do filme de "cheguei lá e larguei tudo". Primeiro porque é muito mais fácil pra um homem chegar no topo da carreira e ganhar uma bela grana. Enquanto eles podem se dedicar à carreia e são criados pra isso, as mulheres muitas vezes ficam responsáveis por todo o resto enquanto o homem vai chegando lá: casa, filhos, a carga mental que bombou tanto nesse quadrinho (leia!) é 100% real. Segundo porque é muito mais fácil pros homens largarem tudo. Eles já largam os filhos com as mães com muito mais facilidade e permissão do julgamento da sociedade que as mulheres. Cadê a mãe dos seis filhos do Leo Babauta? Por que só ele aparece no filme?

Ainda tem outra coisa que me incomodou demais: a diferença do julgamento sobre as coisas dos homens x coisas das mulheres. Enquanto as duas personagens Courtney e Tammy falam e tem enfoque nas roupas e sapatos que tinham (historicamente tratado como futilidade, vocês sabem), o discurso dos homens não é tratado como fútil, até certo ponto, mas tem um quê de mais heróico.

Em um trecho de uma palestra, Ryan fala que um cara perguntou pra ele "eu amo meus livros, eu tenho uma biblioteca gigante, tenho que me desfazer deles?" e a resposta dele foi não, claro. Diferente de quando ele fala sobre os 20 pares de sapatos da namorada que a classificam como não-minimalista. Pode ter uma biblioteca por quê? Por que não pode ter 20 pares de sapato se ela amar e usar todos esses pares? Não acho que dá pra dizer que isso é sem intenção porque se a gente lembrar, foram editadas as falas pra entrar apenas o que eles queriam que tivesse no filme.

Pra quem é possível largar tudo?


Em qual degrau de privilégio estão esses homens, majoritariamente brancos, estão pra dizer que querem sair do emprego que paga 50k dólares por ano pra viver uma vida com mais significado? Que tipo de vida eles tão vendendo com esse discurso? Pra mim, uma vida bastante surreal inclusive pra mim. Essa possibilidade lhes é assegurada por esse privilégio, vale dizer. Essa cifra que eles mencionam no documentário provavelmente garantiu a possibilidade de poder sair viajando e fazendo o lançamento do livro mesmo quando não tinham pessoas suficientes.

O que é verdadeiramente discutido e resolvido no filme?


Minha resposta é: o ego das pessoas. Pra mim, tudo o que aparece ali do jeito que aparece ali mostra apenas o sucesso de dois caras que reduziram drasticamente o número de coisas que tinham incentivando as pessoas a fazerem o mesmo em busca de uma vida com mais significado. Os casos também falam de como eles se sentiram melhor depois que passaram a ter menos coisas, etc. Mas isso só resolve o ego ferido dessas pessoas individualmente e às vezes em casal, nada mais.

Apesar da questão da sustentabilidade ser apresentada no filme, não se discute de verdade. Até porque não foi uma só vez que a dupla Ryan e Joshua aparecem tomando café em copos descartáveis. Não são apresentadas soluções de verdade ao longo do filme, só nos é vendido como isso é bom. Eles usam da mesma lógica do capitalismo e do consumismo pra se vender, o que me parece contraditório por demais.

O foco segue no objeto, nas coisas. Poderíamos estar discutindo o porquê da nossa busca pela felicidade estar tão atrelada a objetos historicamente e como quebrar essa lógica; poderíamos estar falando de como o machismo faz as mulheres depositarem toda sua auto-estima em roupas, sapatos e maquiagens; poderíamos falar sobre lixo e ações para reduzir sua produção a partir do minimalismo. Mas o foco segue nas coisas: tenha menos, tenha só o suficiente, tenha uma blusa só de qualidade, tenha só um ou não tenha. O Joshua inclusive fala que não é contra o consumismo, mas é contra o consumismo compulsório. Bem, eu acho que ele deveria ser contra o consumismo sim, talvez não ser contra comprar coisas – que é bem diferente.

Acho que faltou muito uma discussão mais profunda sobre tudo, faltaram soluções práticas, faltou aprofundar os problemas e faltou ser menos machista. Ficou sendo egoísta também, porque é uma solução de uma pessoa só, não fala em coletivo e mudança real de sociedade. Por isso tudo eu não gostei, mas tem uns pontos legais sim sobre a pressão em ter cada vez mais casas, espaço, etc.

 Semana que vem a gente fala sobre um documentário que vale realmente assistir: Demain (tem na Netflix). E assim a gente dá uma revivida no Clube de Livros & Filmes Sobre Sustentabilidade, yes!