Quando eu comecei a pesquisar o que eu precisaria fazer pra parar de produzir lixo e quais mudanças na minha vida aconteceriam, imaginei (como você, como todo mundo que me pergunta e como todo mundo espera) que faria mudanças dráááásticas na minha vida, rotina, etc. Eis que outro dia, respondendo umas perguntas sobre o UASL justamente sobre isso, me dei conta que minha vida não mudou quase nada (!). Juro.

Talvez porque eu já tivesse um pezinho nesse lado e porque outros hábitos não eram tão difíceis. Não como carne, então nunca faço em casa (então não tenho problema de colocar isso na composteira, que não é recomendado). Não tomo refrigerante nem suco pronto. Não compro doces também, muito muito MUITO raramente. Minha dieta é basicamente verduras, frutas, cereais, grãos e castanhas. Nunca comprei coisas muito processadas ou em caixa (lasanhas, pizzas, coisas congeladas desse tipo), então nesse sentido eu mudei muito pouco. Agora tô tentando comprar mais coisas a granel e logo logo não comprarei embalagens.

Continuo fazendo algumas coisas mas com outros objetos: mudei o uso de algumas coisas, troquei opções descartáveis por reutilizáveis e passei a comprar opções mais naturais de cosméticos, xampu, condicionador, maquiagens e produtos de limpeza: basicamente, vinagre e bicarbonato de sódio.

De qualquer forma, listei o que mais mudou:
- Ter sempre guardanapo de pano, talheres, hashis, sacola de pano e um copo retrátil de alumínio comigo como quem tem sempre escova de dentes ou um remédio de uso contínuo. Ou seja, só passei a ter sempre na bolsa e tô acostumadíssima com isso.

- Nunca ir comprar nada sem planejamento: antes de ir no mercado, por exemplo, sempre penso no que tenho em casa e no que realmente preciso. Sempre confiro se tenho sacola retornável e, em muitas vezes, passo em casa para pegar sacolinhas e potes para ir fazer compras (no mercado ou na loja a granel, os dois são do ladinho de casa).

- Não uso mais absorventes descartáveis, agora uso um coletor menstrual de silicone :D

- Não compro mais nada em tetrapak ou isopor porque são materiais que são difíceis de reciclar e não sei se aqui em SC eles tem destino correto. E não compro nada em embalagem não-100%-reciclável.

- Mudei a areia da minha gata pra uma de madeira que pode ser jogada no vaso.

- Parei de pedir delivery - o que não foi nenhum sofrimento até então, porque eu só pedia em um lugar e muito raramente. Pedi uma vez num momento de tristeza extrema #canceriana e tô lidando com os pacotes de maionese até hoje (usando, lavando, etccccc).

- Limpo a casa com vinagre, bicarbonato de sódio e sabão de coco.

- Lavo a roupa só com sabão de coco líquido (e vou testar um feito-em-casa com bicarbonato de sódio e bórax), aboli o amaciante e uso vinagre no lugar.

- Não vou mais comprar roupas que não sejam fabricadas no Brasil, de preferência só de produtores artesanais e, sempre que possível, de 2ª mão e não novas.

Ainda faltam algumas coisas pontuais que produzem muito lixo como depilação, por exemplo. Outras inevitáveis, como medicamentos e camisinha. Mas até o fim do ano chego lá :)
Fotos: Insecta Shoes, divulgação


Um dos princípios de quem busca uma vida lixo-zero é comprar coisas usadas ou reformar as suas antes de "jogar fora" ou doar. Usar até o fim mesmo. Eventualmente precisamos comprar coisas novas, seja porque não achamos nosso número ou nosso estilo nas ofertas de usados seja porque queremos algo novo mesmo (acontece, uai). Apesar de concordar com a frase do Rick Ridgeway, executivo responsável pelas iniciativas de meio ambiente da Patagônia que diz que "o produto mais verde é aquele que já existe", acho que marcas que se propõe a criar coisas novas usando o mínimo de recursos novos e com certa consciência sobre seu impacto, merecem seu espaço e aplausos. Por isso, vim aqui fazer propaganda dos sapatos da Insecta Shoes.

Dei de cara com um Insecta pela primeira vez em uma foto da amiga Flávia Schiochet. Como ela também é super ligada em veganismo e conceitos eco, fui dar uma investigada e qual não foi minha surpresa de ser uma marca brasileira!

Pamela Magpali, Bárbara Mattivy e Laura Madalosso, sócias da marca, fazem sapatos a partir de roupas de brechós usando o conceito upcycling – que significa ressignificar algo sem precisar reciclar, mas dando uma nova forma para aquilo. O solado, de borracha, também é feito de borracha excedente da indústria, triturada e refeita. Tipo papel reciclado mesmo, de acordo com elas. Além disso, todos os sapatos são veganos, sem nenhum material de origem animal. E, por eles serem feitos a partir de roupas, são super exclusivos: nem sempre tem todos os números para cada estampa e cada par é único. Por isso ficamos sempre de butuca no site, esperando o nosso número aparecer – ou não, eu comprei um número maior porque não aguentei esperar. O extra é que eles são extremamente confortáveis. Sério mesmo, palavra de quem não acreditava nisso.

A marca, que vendia online para o mundo todo e é cheia de fãs nas redes sociais, abriu ontem sua primeira loja física em Porto Alegre – garantia de sucesso e do maior interesse das pessoas por produtos mais verdadeiros em seus valores. O preço médio dos sapatos é R$240, o que individualmente é bem carinho, mas são peças exclusivas produzidas artesanalmente – e ninguém precisa ter mil sapatos, right? Invista em um de qualidade, feito localmente de acordo com princípios legais, confortável e que vai durar bastante tempo. Vale dizer que tem muita loja que produz tudo na China sob condições questionáveis, com material sem tanta qualidade e vende seus sapatinhos pelo mesmo preço.



Fiz uma mini-entrevista com a Bárbara e algumas perguntas cês podem ler aqui:

Vocês sempre pensaram ou tiveram a intenção de investir em algo sustentável, eco, que reutilizasse recursos? Como foi a ideia de criar a Insecta?
Sim, sempre quisemos ir pra esse lado, mas antes de nos conhecermos estávamos meio sem tantas ideias originais. Foi da união das duas marcas mesmo que a ideia ficou mais madura, e hoje em dia estamos lutando cada vez mais pra deixa o sapato o mais sustentável possível. Tem várias ideias novas surgindo em breve!

Como é o processo de criação e fabricação dos sapatos?

Nós garimpamos à mão as peças de roupa para serem desmanchadas. Depois elas são dubladas com um tecido mais resistente para virarem sapato. Fazemos a combinação dos tecidos com o restante do material e o sapato é fabricado praticamente todo à mão também, bem artesanal e em baixa escala ainda.

As pessoas parecem se importar com a origem dos recursos que vocês utilizam?
Sim, a galera fica super surpresa quando descobre que os sapatos são feitos de roupas vintage. Admiram muito, o feedback tem sido super positivo não só por isso, mas pelo sapato ser super confortável também!

Mini-insectas para os pequenos também :)


Os sapatos de vocês são super lindos. E ultra confortáveis. E eco-friendly. E veganos. Vocês se veem como uma inspiração pras pessoas e outras marcas mostrando que tudo isso é possível, que uma coisa não impossibilita a outra?
Não criamos nada com o intuito de ser referência ou inspiração, mas acho que acabou acontecendo sim de alguma forma. Sempre fomos super críticas e exigentes, na verdade, pra conseguir fazer um produto de extrema qualidade e bastante inovador. Mas é muito bacana poder repassar essa mensagem, tomara que cada vez mais pessoas se inspirem em ideias desse tipo pra fazer um mundo melhor :)

Como vocês veem esse movimento mais sustentável no mundo da moda aqui no Brasil?
Vemos que está crescendo e sendo valorizado cada dia mais, ficamos bem felizes com isso. Ainda é difícil às vezes encontrar fornecedor, mas a oferta está aumentando, com certeza.

Por fim, qual o futuro da marca? Vocês tem planos para aumentar a produção, vender em outros lugares, fazer parcerias diferentes etc?
Temos milhares de planos e ideias e aos poucos elas vão saindo do papel. Estamos abrindo nossa primeira loja física esse mês, em Porto Alegre, nossa terra natal. Temos planos de lojas pop up por outras cidades do Brasil, imensas ideias de parcerias e ações. Só não podemos contar mais nada por agora ;)

Vai lá!
- Loja física: Rua Lima e Silva, 1519 – Porto Alegre. Das 14h às 20h de terça à sábado.
- Online: www.insectashoes.com
Um tempo atrás saiu uma matéria dizendo que seria desperdício de água lavar os lixos recicláveis. Algumas pessoas já me perguntaram se isso procede e venho aqui pra dizer que não, não é bem assim.

Se você lavar as embalagens de comida na pia, com a água que vai sendo usada pra lavar a louça, quase não se usa água "nova" pra isso. Lavar as embalagens, sobretudo as de comida, higieniza e impede de dar mau cheiro, de vazar e contaminar outros materiais como papéis, de apodrecer durante o tempo que não for para a coleta seletiva e até de atrair animais que transmitem doenças.

Muitos centros de triagem acabam descartando o reciclável muito sujo e enviando para aterros como lixo comum por não terem a estrutura necessária para executar esta etapa de limpeza. Aqui em Floripa, por exemplo, mesmo no dia da coleta seletiva, os lixeiros não pegam sacolas que tenham cheiro muito ruim ou aparentem estar muito sujos. Sei disso porque minha ex-síndica lutava muito para que as pessoas separassem o lixo certinho porque a coleta vivia não pegando nossas sacolas de "reciclável" mau-cheirosas.

A água que vai ser usada para limpar essas embalagens é infinitamente menor que a água que se gasta para produzir embalagens novas. Só não precisa lavar TÃO BEM quanto a louça, pode ser só limpar o grosso, na hora que você terminar de usar o que tinha dentro do pote. A mesma matéria que tem essa manchete alarmista e equivocada afirma que devemos lavar o lixo com água de reuso. Pode ser que as coletas higienizem seu lixo sim, mas você vai ter facilitado o trabalho de todos e ainda garantido que nada vai ser inutilizado.

Lave seu lixo sim! Passa um fio de água pra tirar o grosso, pelo menos! #polêmica