Há um tempo atrás, quando a gente falava de roupa usada de brechó, o que vinha na cabeça era uma roupa ruim, fedida e muuuito usada. Tô errada? Talvez você ainda veja isso na sua cabeça. É que é difícil mesmo mudar uma ideia que a gente ouve tanto. Mas você talvez já pense em peças baratas, porém em bom estado como no caso do Enjoei ou peças vintage incríveis como no caso de muitos brechós legais por aí.


E o Garimpário é assim: um brechó legal com peças usadas, mas novinhas e alguns achados vintage. Esse projeto foi criado por três amigos, a Jaqueline Scissar, o Renato Kormives e a Emanuele Lazzari. Foi durante a faculdade de moda que eles começaram com a ideia de vender as próprias roupas que não usavam mais, que logo viraram as suas roupas + as roupas de amigos + alguns garimpos de brechós.

Era um projeto paralelo e bem diferente, um brechó online sem cara de vó, com cara de jovem. Hoje em dia, a kombi Antônia é parceira pra levar as peças do brechó pra outras cidades, participando de feiras. Mas pra saber mais, fui falar com a Jaque e o resultado foi essa super entrevista:

1. Quando surgiu a ideia de fazer um brechó online?


A ideia surgiu durante a faculdade, em 2012. Além de sermos super amigos, nós três sempre fomos apaixonados por brechós, e decidimos tornar esse amor em negócio. No início a intenção era nos desfazermos das roupas que a gente tinha e que não queríamos mais, viajamos muito juntos e fazia parte dos nossos roteiros conhecer os brechós das cidades que visitamos. Com isso acabamos acumulando muita coisa e sentimos a necessidade de começar a desapegar delas. Como tínhamos vários amigos querendo desapegar de muita coisa também, começamos o site com essas peças, e depois partimos pra buscar peças exclusivas pro Garimpário.

2. Em que momento vocês pensaram em comprar uma kombi e transformar o brechó em um evento itinerante também? Vocês já faziam isso antes só que com outros carros?

Antes da Kombi nós já havíamos participado de alguns eventos em Florianópolis. A gente sabia que existia mercado pro Garimpário em feiras, mas como trabalhamos com peças exclusivas, a quantidade de produtos que tínhamos que levar pra cada lugar era muito grande, ficando impossível viajar pra montarmos stands em outras cidades. Além disso era muito cansativo pra gente, sempre com muita coisa pra carregar no carro, montar nosso espaço, desmontar, encabidar peças, desencabidar, tudo começava do zero, não tínhamos estrutura nenhuma pra de alguma forma agilizar o processo no dia dos eventos.


A Kombi foi um projeto meu paralelo, mas que desde o início entrou como parceiro do Garimpário. Comprei ela justamente pra poder viajar com as peças e participar de feiras em outras cidades e estados. Na verdade a Kombi serviu pra unir minha vontade em viajar com o que gosto de trabalhar. Vi a Kombi como uma oportunidade de mudar aos poucos meu estilo de vida e conseguir conciliar trabalho com a forma que quero viver. O Garimpário foi então um passaporte pra essa mudança, que tornou possível ver ela na estrada em tão pouco tempo.

3. Vocês quiseram trabalhar com roupas usadas por algum motivo especial?

Primeiramente amamos os diferentes estilos de roupas que podemos encontrar em brechós. A varidade é muito grande, as peças são exclusivas, diferenciadas e com preço pra todos os bolsos. Também acreditamos no reaproveitamento de peças como forma de evitar uma produção desenfreada de peças que acabam tendo sempre o mesmo destino: o lixo. Além de encontrar uma utilidade pro que iria ser descartado, reduzindo a quantidade de lixo, também devemos lembrar da poluição que a indústria da moda causa.

O impacto gerado ao meio ambiente é muito grande na produção de vestuário, com um gasto gigantesco de água e uma quantidade enorme de resíduos descartados de maneira incorreta, sem contar o alto consumo de energia elétrica durante o processo. Se ainda nos aprofundarmos um pouco mais no assunto também nos deparamos com uma questão social, onde hoje muitas peças de moda provêm de trabalho escravo. De todas as formas, vemos que trabalhar com peças usadas traz vários benefícios, nos permitindo trabalhar com o consumo consciente aliado a sustentabilidade.


4. Vocês mudaram a percepção sobre o mundo da moda depois de começar esse projeto? O que vocês descobriram e passaram a questionar?

Com certeza, nossa percepção de sustentabilidade mudou completamente. Passamos a enxergar todos os malefícios causados pela indústria da moda e os problemas gerados pelo consumo e descarte desenfreado de peças. Temos cada vez mais convicção de que brechós representam o futuro no que diz respeito à moda consciente.

5. Hoje em dia, no seu guarda-roupa tem mais roupa de 2ª mão que roupa que foi comprada nova na loja?

Sim, hoje quase não compro peças novas em lojas, sempre dou prioridade para encontrar o que preciso em brechós.


6. Conta mais do projeto: onde vocês já passaram; onde dá pra acompanhar o itinerário da kombi; onde compra; como é o processo com as roupas, etc.

Hoje vendemos online para todo o Brasil pelo nosso site, e pessoalmente em eventos com a Kombi. Além das feiras que participamos em Florianópolis já passamos por Blumenau, Balneário Camboriú e Porto Alegre. Para acompanhar o itinerário da kombi e os eventos que participamos basta seguir e ficar de olho na nossa página do facebook. Estamos viajando cada vez mais, e já posso adiantar que nos nossos planos de verão pretendemos levar a Antônia pro nordeste.

Com relação ao que vendemos, pra termos peças incríveis na nossa loja nós garimpamos os brechós durante nossas viagens (algumas fora do Brasil), com um cuidado especial pra deixarmos elas como novas. Lavamos, higienizamos, consertamos, customizamos, tudo pra que o produto chegue no cliente em perfeito estado. Também compramos peças de pessoas que entram em contato com a gente, então o fluxo de novidades que temos acaba sendo bem grande.



Vamos falar de menstruação.

Os absorventes descartáveis foram um dos responsáveis pela liberdade atual das mulheres. Antes e até hoje em dia, em outros países, mulheres e meninas sofrem com os dias que estão menstruadas porque não possuem um produto adequado que recolha o sangue, não deixe a roupa suja e não impeça de fazer as atividades normais. Foi por causa das "fraldinhas" (os absorventes normais) e dos absorventes internos que a gente passou a ignorar os dias de Chico e continuamos trabalhando, indo pra praia, pra natação, pra escola e até fazendo sexo.

Foi um passo pra liberdade. Mas os absorventes da liberdade não são recicláveis. Eles são compostos de plástico, algodão quimicamente tratado, embalagem, papel, adesivo, às vezes aplicador, papelzinho, embalagem individual e etc. Em cada ciclo menstrual, a gente usa mais ou menos 10 absorventes. Ou seja, 120 absorventes por ano. Hoje em dia a gente tem cerca de 400 ciclos ao longo da vida, ou seja, 4 MIL absorventes jogados fora que ficarão 100 anos ou mais até se decompor!

Agora que a gente já chegou aqui e não quer perder nossa liberdade, temos duas opções para não continuar produzindo lixo: coletores menstruais de silicone ou absorventes reutilizáveis de algodão.

Um coletor de silicone custa em média uns R$75, o que dá mais ou menos 6 ou 7 meses comprando absorventes. E ele pode ser usado por vários anos (dizem que até 10, mas tudo depende de como você cuida dele), ou seja, compensa.

Já o absorventes reutilizáveis de algodão são absorventes iguais aos descartáveis, feitos de tecido. Você usa com a mesma frequência e do mesmo jeito. Para lavar os absorventes de algodão, é bom deixar de molho com bicarbonato de sódio e colocar gotas de óleo essencial de melaleuca (tea tree) que ajuda a desinfetar. Sem neura, joga na máquina que ela faz tudo hoje em dia. ;)

O coletor é o mais diferente pra maioria de nós. Surgem muitos pontos de interrogação quando você vê a fotinho dele e pensa "será que isso é mesmo maravilhoso?". Pois sim, é. Você pode ficar de 8 a 12h usando ele, bem mais tempo que um OB (cerca de 4h) e sem medo de ter uma síndrome rara (vocês já leram as instruções de um absorvente interno e viram que você pode ter síndrome rara?).

Você não produz lixo. Você não coloca um algodão quimicamente tratado dentro do seu corpo. Você esquece que está menstruada. Você não deixa um algodão absorver não só sua menstruação como todas as outras coisas que são boas para sua saúde íntima. Você pode dormir com ele!

Depois de quase um ano e meio usando o coletor, eu voltei aqui pra dizer que ele é realmente tudo isso que eu achava que ele era. É prático, eu realmente esqueço que tô menstruada, é higiênico, dá pra fazer yoga e andar de bike sem se preocupar, vaza muito menos que os absorventes "normais", é super mais barato já que faz quase um ano que ele se pagou.

O coletor menstrual mudou muito minha percepção do meu ciclo e achei isso muito empoderador. Eu não fazia ideia do volume ou da textura da menstruação, hoje eu sei. E é importante saber, pra que cada mudança que a gente perceba, a gente saiba falar pro médico. Conversei com várias amigas sobre o assunto e a maioria que começou a usar, não pensa em deixar de usar jamais.

Se você não se convenceu ainda, vê esse vídeo da Jout Jout:



Outras dúvidas que sempre me perguntam e que eu também tinha:

- É desconfortável?
Não. Você não sente nada, assim como um OB.

- Não é nojento?
Bem, é sua menstruação. É um pouco, ok. Mas você joga no vaso, lava na pia e coloca de novo. Nada de espetacular nisso tudo.

- É difícil de acertar a posição para colocar?
Eu achei tranquilo porque segui a instrução das marcas e de quem usa que é não enfiar para cima, mas para trás. Na dúvida, usa um outro absorvente na calcinha nas primeiras vezes que você colocar pra se sentir mais segura. E o vídeo da Jout Jout ajuda muito.

- Como fazer pra tirar e limpar se ficar mais de 12h fora de casa?
Você pode levar uma garrafinha d'água e lavar o coletor ali mesmo na cabine do vaso. Nunca fiz, mas esse é meu plano caso precise. Escolha um banheiro teoricamente mais limpinho, tipo os de shopping ao invés de um de buteco. E lave a mão ANTES de ir fazer isso.

- Qual o jeito certo de higienizar o coletor menstrual?
Ferver por 5 minutos sempre antes e depois de cada ciclo. Além disso, durante as limpezas do dia, é bom lavar com bastante água e um pouquinho de sabão.

- Como eu sei que vai ser o tamanho certo?
Depende da marca, mas quase todas têm pelo menos 2 tamanhos. A Holy Cup tem mais tamanhos e também opções mais maleáveis ou rígidas do silicone. É legal ver as recomendações de todas as marcas, conversar com quem tem pra se decidir. Eu uso o da Inciclo, que foi o primeiro que vi e comprei. Mas preferia ter comprado um que, no cabinho, não fosse vazado. O da Holy Cup parece mais confortável porque é uma bolinha. Eu tive que cortar um pedacinho do cabo pra me adaptar.

- O coletor não tem chance de se perder lá dentro?
Não, porque ele fica logo na entrada do canal vaginal. É diferente do OB que precisa ser enfiado lááá em cima. O coletor fica bem mais pra baixo (tem que dar pra tirar com a mão, né?). E, além disso, ele cria um vácuo pra ficar no lugar (e não vazar).

Se vocês tiverem mais dúvidas, me mandem que responderei pra vocês e aqui :)

Para comprar:
- Holy Cup
- Inciclo
- Meluna
- Mooncup
- Kit com absorventes de pano + Inciclo