Já li muito sobre quais ingredientes são os piores na composição de cosméticos* e demorei pra formular uma lista final porque sentia que se ficasse listando, nunca iria acabar. Essa lista aqui não é baseada em achismos, mas em pesquisas científicas que comprovaram a toxicidade de alguns ingredientes e em resultados divulgados por algumas organizações independentes (links todos lá embaixo). Essa lista tem o nome do produto em inglês e em português e como é o nome usado na rotulagem de cosméticos de acordo com o INCI (International Nomenclature of Cosmetics Ingredients). Também tentei trazer os usos mais comuns (em quais tipos de cosméticos eles são mais facilmente encontrados) e quais os riscos encontrados nas pesquisas.

Tenha em mente que a ciência é uma coisa em movimento, então a todo momento surgem novas pesquisas mais conclusivas sobre os mais variados assuntos. Minha lógica é que, se há uma suspeita, eu prefiro evitar desde já porque posso. :)

Esses ingredientes são comuns em todo tipo de cosmético encontrado em farmácias ou mercados (inclusive os voltados pra bebês!), mas também em marcas mais tidas como naturais só pelo nome (Natura), marcas caras (La Roche Posey), marcas baratas (Vult, Avon), etc. Tá em tudo porque esses ingredientes são baratos. Os órgãos reguladores consideram seguro porque de acordo com eles a exposição é em pequena quantidade, mas sempre que eu penso que diariamente a gente usa uns 15 produtos e essa pequena quantidade é multiplicada por 15 vezes, acho que não deve ser tão ok assim. As leis ainda não mudaram porque são estudos recentes e porque bem, vocês sabem, essas marcas vão lutar para o contrário assim como acontece com os alimentos.

Minha intenção em mostrar esses assuntos é que você tenha autonomia pra poder ler no rótulo um desses nomes, saber que ele está associado ao câncer de mama e poder escolher não usar. Aqui no blog, na categoria beleza natural eu tenho algumas receitas pra você fazer em casa e substituir alguns cosméticos, além de indicações de algumas marcas de cosméticos naturais que não usam esses ingredientes da lista. Recomendo muito dar uma pesquisada no blog Tantas Plantas da Michele que tem reviews muito muito legais de muitos (mesmo) cosméticos naturais dos mais variados preços e marcas.

Foto: Joanna Kosinska via Unsplash

Amianto 

Cancerígeno, ligado a câncer de pulmão quando inalado. Encontrado em cosméticos como maquiagem em pó ou talco para bebês que contenham talc na sua composição. Normalmente é contaminante do talco e não um ingrediente em si.

BHA e BHT

(Butylated Hydroxyanisole, Butil-hidroxianisol) e (Butylated Hydroxytoluene, Butil-hidroxitolueno)
Usado principalmente em hidratantes e maquiagens como conservadores. Suspeitos de causar câncer (BHA) e interferir no funcionamento hormonal. Nocivos a peixes e outros animais e plantas selvagens.

Chumbo 

(Lead acetate ou lead)
Usado em cosméticos com alta pigmentação como fixador ou corante como tintas de cabelo e batom. Neurotoxina, cancerígeno e cumulativo no corpo, podendo causar intoxicação.

Coal tar dyes 

(corantes de alcatrão de hulha)
Procure por P-Phenylenediamine (P-Fenilenodiamina) em tinturas para cabelo e por cores identificadas como “C.I.” e seguidas por cinco dígitos em outros produtos**. Potenciais causadores câncer e podem estar contaminados por metais pesados.

** Pigmentos naturais e inorgânicos usados em cosméticos também usam o Color Index (CI) com números entre 75000 e 77000, respectivamente.

DEA, cocamide DEA, MEA e TEA 

DEA (Diethanolamine, Dietanolamina), cocamide DEA, MEA (Monoethanolamine, Monoetanolamina) e TEA (Triethanolamine, Trietanolamina)
Encontrado em produtos cremosos e que formam espuma, como hidratantes e xampus. Podem reagir e formar nitrosaminas que são causadoras de câncer. Nocivos a peixes e outros animais e plantas selvagens.

Dibuthyl Phthalate 

(Dibutilftalato)
Usado como plastificante em alguns produtos pra unhas. Tóxico para o sistema reprodutivo e pode interferir no funcionamento hormonal. Nocivo a peixes e outros animais e plantas selvagens.

Formaldeído e liberadores de formal

Formaldehyde-releasing preservatives (conservantes que liberam Formaldeído): Procure por DMDM Hydantoin (DMDM Hidantoína), Diazolidinyl Urea (Diazolidinil Uréia), Imidazolidinyl Urea (Imidazolidinil Uréia), Methenamine (Metenamina) ou Quaternium-15 (Quatérnio-15)
Usados em uma variedade grande de cosméticos como esmalte de unhas e shampoos. Libera uma quantidade pequena de formol muito devagar. Formaldeído é cancerígeno, causa dermatite de contato e enxaqueca.

Parabenos

Paraben (Parabeno), Methylparaben (Metilparabeno), Butylparaben (Butilparabeno), Propylparaben (Propilparabeno)
Parabenos são usados em todos os tipos de cosméticos como conservantes. Podem interferir no funcionamento hormonal. Associados ao câncer de mama.

Parfum 

(Perfume)
Usado mesmo em produtos "sem perfume". Mistura de compostos químicos (pode chegar a 5mil ingredientes!) que podem provocar alergias e asma. Alguns estão relacionados a câncer e neurotoxicidade. Alguns são nocivos a peixes e outros animais e plantas selvagens.

PEGs 

(Polyethylene Glycol, Polietilenoglicol)
Amplamente usado em condicionadores, hidratantes, desodorantes etc. Pode estar contaminado por 1,4-Dioxane (1,4-Dioxano), que pode causar câncer.

Petrolatos

Petrolatum (Petrolato)
Em produtos para o cabelo, protetores labiais, batons, produtos para a pele. Produto derivado de petróleo que pode estar contaminado por impurezas causadoras de câncer. Cria uma camada superficial que impede pele e cabelo de respirarem, obstrui os poros. Procure por Petroleum oil (Petróleo), Petroleum Jelly (Óleo de Vaselina), Petrolatum (Petrolato), Mineral oil (Óleo Mineral), Mineral Jelly (Geleia Mineral), Liquid Paraffin (Parafina Líquida).

Plásticos e plastificantes

Encontrado em produtos pro cabelo, esfoliantes e até pasta de dentes. Usado pra adicionar viscosidade e abrasão no caso das microesferas de plástico. Afeta os hormônios, ligado ao câncer. Absorvem toxinas e poluem água, animais selvagens, a cadeia inteira. Procure por Polyethylene (Polietileno), Polythene (Politeno), PE ou Phenoxyethanol (Fenoxietanol), Phthalates (Ftalatos).

Silicones

Siloxanes (Siloxanos): Cyclotetrasiloxane, cyclopentasiloxane, cyclohexasyloxane e Cyclomethicone (Ciclometicone)
Silicones usados em cosméticos para suavizar, alisar o toque, normalmente em hidratantes pra pele e cabelo. Podem interferir nas funções hormonais e causar danos ao fígado. Nocivos a peixes e outros animais e plantas selvagens.

Sulfatos

Sodium Laureth Sulphate (SLES, Lauril Éter Sulfato de Sódio) e Sodium Lauryl Sulphate (SLS, Lauril Sulfato de Sódio)
Em produtos que formam espuma como xampus, sabonetes líquidos, espumas para banho. Ressecam a pele e podem causar alergias e dermatites. SLES pode estar contaminado por 1,4-Dioxane (1,4-Dioxano), que pode causar câncer. SLS pode causar danos ao fígado. Nocivos a peixes e outros animais e plantas selvagens.

Triclosan

(Triclosano)
Em produtos bactericidas como cremes dentais, sabonetes, desinfetantes para as mãos. Pode interferir no funcionamento hormonal e contribuir para a formação de bactérias resistentes a antibióticos. Nocivo a peixes e outros animais e plantas selvagens. Pessoas com espinhas persistentes ao longo da vida podem ter alergia ao triclosan.

* Com informações do livro Skin Cleanse da Adina Grigore; da instituição canadense David Suzuki Foundation – What's Inside? That Counts: A Survey of Toxic Ingredients in Our Cosmetics; a tradução da Michele do blog Tantas Plantas dessa última; e do Quick Tips for Choosing Safer Personal Care Products d ONG americana Environmental Working Group.

Pra ler mais:

  • As listas de ingredientes tóxicos em cosméticos da Nyle do blog Lookaholic é bem completa, tem alguns que eu não cito aqui. Parte 1 e parte 2.
  • O ebook "Beleza Tóxica" escrito pela Nyle também é muito importante como leitura auxiliar. Clique aqui para baixar.
  • O Skin Deep da EWG (Environmental Working Group) tem um pdf com dicas de ingredientes a serem evitados (clica aqui pra baixar), além da plataforma ter um banco de dados imenso que você pode pesquisar item por item pra saber o que tem de pesquisas sobre.
Diminuir o lixo trocando o que é descartável por reutilizável é relativamente bem fácil, eu já dei algumas dicas simples por aqui. Mas, quando a gente fala de outras coisas, fica mais difícil de saber como diminuir o lixo e ser mais sustentável. Por isso, no post de hoje eu quero falar e dar dicas pra gente aprender a comprar roupas de forma mais sustentável. :)

Ter um guarda-roupa sustentável não é nem só comprar roupa usada, nem só não comprar roupa, nem só ter roupas feitas com algodão orgânico. Ter um guarda-roupas sustentável é ter aquilo que você vai usar e usar tudo aquilo que você tiver. É cuidar, é questionar e se preocupar.

Você não precisa comprar uma peça nova todo mês


Definitivamente não precisa. Eventualmente você precisa de um vestido novo, um casaco, umas blusas. Não todo mês. Não adianta parar de comprar de lojas fast fashion e continuar agindo com uma consumidora de fast fashion.

Crédito: Un-fancy

Avalie o que você já tem


Tire todas as suas roupas do armário e avalie uma por uma. Deixe só aquelas que você realmente ama usar. Aquelas que você fica confortável e se sente bem. Pergunte pra cada item que você já tem e repita essas perguntas quando quiser colocar algo novo no armário:


  • Eu me sinto bem vestindo essa peça?
  • Eu consigo usar ela em diferentes situações?
  • Eu consigo combinar com outras peças no meu guarda-roupa (as meninas da Oficina de Estilo sempre falam que tem que combinar com pelo menos três, bem diferentes entre si)?
  • Vai continuar sendo bonita em 1, 2, 5 anos?
  • É bem feita, de qualidade?


Iniciativas como a Roupateca e a Lucidbag, bibliotecas de roupas onde você aluga peças por alguns dias também são muito legais. A gente não necessariamente precisa ter aquela peça, pode usar por um tempo e depois devolver.

Compre menos e seja mais coerente


Compre menos. Simples assim. Será que não tem roupa suficiente no seu guarda-roupa pra ficar um ano sem comprar? A Jojo começou o Um Ano Sem Zara justamente com esse desafio e deu muito certo.

Desde que eu comecei o Um Ano Sem Lixo, eu tenho focado na construção de um armário mais sustentável, mas também minimalista. Talvez, depois de fazer uma super limpa no seu guarda-roupa deixando só o que você ama, você sinta zero necessidade de comprar algo novo por um bom tempo. Foi o que aconteceu comigo. ;)

Mas ó, minimalista não significa tudo sem estampa, tá? No meu caso, significa um pouco porque é o que eu gosto de vestir. Mas se você gosta de estampas, de cores vibrantes, também dá pra ter um guarda-roupas enxuto e minimalista com seu estilo (vale demais ver as inspirações no instagram da @oficinadeestilo).

Esse paletó lindo eu comprei em um brechó, viu?

O produto mais verde é aquele que já existe


Vou sempre bater na tecla que comprar usados é mais legal do ponto de vista ecológico porque é um produto que já foi produzido. Mas não adianta encher o guarda-roupas de peças usadas só porque é baratinho. E, às vezes, comprar uma usada de péssima qualidade é pior que uma nova mas de alta qualidade e que vai durar muito.

Pode ser em brechós, que tem cada vez mais uma variedade legal de peças; pode ser em sites como o Enjoei; pode ser trocando roupas com as amigas, mãe, irmã, primas. Bora colocar essas roupas pra rodar o mundo! A gente economiza dinheiro, embalagem e recursos usando algo que ficaria parado.

Procure por qualidade sempre


Qualidade. A gente sempre fala pra buscar roupas de qualidade, mas como faz isso na prática? Assim: vire a peça do avesso e veja se a costura tá bonitinha, se não tem fio solto. Quando o avesso é embutido, todo bonito como se nem estivesse do avesso, é sinal de super cuidado. Tecidos muito fininhos ou tricôs bem abertinhos costumam estragar rápido se você não lavar na mão.

Às vezes, qualidade é mandar fazer roupas. Aquela costureira super caprichosa que faz tudo direitinho, com molde e costura embutida, pode fazer uma blusinha que vai durar muito mais. E claro, marcas locais normalmente tem qualidade superior às de fast-fashion porque não são costuradas às pressas em metas malucas e desumanas.

Consuma consciente


Se preocupar com o produto também é importante. Se a gente conseguir comprar de marcas locais que produzam roupas de forma ética, sustentável, com tecidos de algodão orgânico e que sejam lindas e a gente goste, é quase como ganhar na loteria. Mas eu sei que nem todo mundo tem dinheiro pra comprar essas roupas, porque é mais caro sim – porque é mais justo, paga a cadeia inteira, não dá pra nenhuma blusinha custar R$19,90 sem estar sendo injusta em algum(ns) ponto(s) da cadeia produtiva. Por isso eu sou tão fã dos brechós e das peças usadas!

Se responsabilize pelo depois


No Brasil, não temos reciclagem de tecidos. O que significa, em suma, que as roupas que não são mais usadas vão pros aterros sanitários, sem chance de reciclagem. Por isso, mesmo que a tentação de comprar seja enorme, pense em quanto tempo essa peça não estará anunciada na sua lojinha do enjoei ou numa caixa de doações. O mínimo que podemos fazer é aproveitar muito bem aquela peça, usá-la até o fim da sua vida, para compensar todo o custo ambiental da produção e tingimento do tecido, do transporte, da manufatura, das lavagens, etc.

Viu? Tem um montão de coisas pra pensar e fazer antes de comprar uma roupa nova. Mas o mais importante é o trabalho interno, é se questionar. A origem do produto é importante, claro, mas dar um passo pra trás é ainda mais. :) Não consumir é muitas vezes o melhor jeito de consumir consciente.